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Judite Afonso

Devido a uma situação de desemprego de longa duração, e com vista a ocupar o meu tempo livre de uma forma útil, tornei-me voluntária da Santa Casa da Misericórdia de Almada em 2009, desejo que sempre quis realizar mas que, por força das vicissitudes da vida, não pudera até então concretizar. Mas, já diz o provérbio, há males que vêm por bem e, no meu caso pessoal, a crise roubou-me o posto de trabalho mas, em contrapartida, deu-me o tempo livre necessário para poder dedicar-me um pouco aos outros.

Enquanto voluntária tive oportunidade de conhecer muitas pessoas com os mais diversos problemas e carências, muitos dos quais absolutamente devastadores. Obviamente que não é possível resolver os problemas de todas elas, mas também não é essa a missão das inúmeras pessoas que fazem voluntariado por este mundo fora! A maioria das vezes uma palavra, um gesto, um sorriso e o saber ouvir quem está do outro lado é quanto basta para amenizar o sentimento de angústia e impotência perante um destino muitas vezes cruel, para que os seus dias se tornem mais risonhos e possam olhar para o amanhã com esperança de dias melhores. Foi neste contexto do voluntariado que conheci, há quase um ano, uma família residente num bairro social do Monte de Caparica, cujo agregado familiar é composto por pai e filha. O pai, (José)* de 81 anos, e tem diversos problemas de saúde, nomeadamente problemas cardíacos, osteoporose, hérnias discais, hipertensão e falta de ar. A filha, Alice* de 44 anos, nasceu com paralisia cerebral e, como tal, tem inúmeras limitações físicas. A sua melhor amiga, para além de uma cadelinha chamada Laica*, é uma cadeira de rodas manual já antiga, que ela, devido à sua deficiência física e por estar com as mãos todas deformadas, só consegue movimentar com os pés, também estes já deformados, e com muito esforço!... A Alice perdeu a mãe em 2010, vítima de AVC e, escusado será dizer, a mãe era o seu grande suporte para tudo na vida. Tanto a Alice como o pai têm apoio da Santa Casa da Misericórdia de Almada ao nível da higiene diária e todos os dias eu passo uma hora e meia com eles. A Alice tem dois irmãos incansáveis que, para além de trabalharem, se desdobram heroicamente para ajudar a irmã e o pai quer a nível da limpeza da casa, quer ao nível das refeições e, não raro, dormem lá em casa para dar algum apoio que precisem, já que o pai está acamado e a Alice é dependente de uma cadeira de rodas e precisa de ajuda para quase tudo, inclusive para ir à casa de banho… Dada a condição física de ambos e o facto de viverem num 2º andar de um prédio que não possui elevador, a Alice e o pai passam, necessariamente, os seus dias sozinhos em casa e a sua única companhia, para além das visitas que os familiares e eu lhes fazemos, é a televisão, pelo que vêem todos os programas. A primeira vez que entrei na sua casa e, mais particularmente no seu quarto, não pude deixar de reparar que as paredes estão cobertas por posters do Tony Carreira e dos filhos, cantor de que a Alice é fã nº1 e cujas músicas conhece de cor! O seu maior sonho era poder assistir a um programa de televisão, desses que, nas suas humildes palavras, ajudam as pessoas com dificuldades várias a concretizar alguns sonhos, e poder ter uma cadeira de rodas eléctrica que lhe permitisse ser um pouco mais independente e não requeresse tanto esforço físico da sua parte para movimentar! E, claro está, conhecer o Tony Carreira e, até, quem sabe, poder ir a um concerto seu…!!! A Alice é uma pessoa muito inteligente, e, apesar de todas as barreiras que lhe têm surgido ao longo da vida, tem um grande sentido de humor e é muito meiga…E, como qualquer pessoa que se vê prisioneira, a Alice olha pela janela da sua casa e sonha com a liberdade, com o dia em que poderá ser mais independente e poderá sair à rua para respirar ar puro e em que, segundo ela, do alto da sua ingenuidade e inocência, não terá de "dar cavaco a ninguém, e ninguém a parará!" Desde que conheci esta mulher fantástica,, de riso fácil e sorriso contagiante que o meu sonho se tornou também o dela… Escusado será dizer que a parca reforma do pai e o subsídio da Alice são insuficientes para fazer face à renda da casa, às despesas a ela inerentes, à medicação de que ambos precisam diariamente, e, por isso mesmo, não lhes é possível adquirir a cadeira de rodas eléctrica que tanta falta faz a esta linda menina…É neste sentido que decidi ajudar a Alice a concretizar o seu sonho, um sonho que, ao contrário de outros que tantas vezes temos, se pode certamente realizar!

* Nomes fictícios

Maria Judite Afonso 56 anos Voluntária do SAD


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Ser Voluntário

As Santas Casas iniciaram as suas ações em finais do século XV tendo como base o trabalho voluntário dos irmãos. Com o decorrer do tempo e o alargamento da intervenção das Misericórdias, o...